O 20 de novembro de 2025 amanheceu diferente e assim permaneceu ao longo do dia em Plataforma, no Subúrbio de Salvador. Era quinta-feira, feriado do Dia da Consciência Negra, mas a representatividade da data ia muito além para a comunidade do icônico bairro suburbano. Era dia de festejar a vida de um ilustre morador: o “porreta” repórter fotográfico Jorge de Jesus.
Logo cedo, no Acervo da Laje, no São João do Cabrito, voluntários preparavam terreno para uma justa homenagem ao fotojornalista, que completou 80 anos em maio deste ano. Com direito a aparição ao vivo em programa de TV, aquele senhor, que recentemente enfrentou os impactos de um AVC, entendeu em dimensão macro sua importância para a família, amigos e vizinhos.
Em sua trajetória profissional, sempre destacada com carinho por colegas de profissão, passou por diversos jornais de Salvador e do país, mas foi ’em casa’, mirando a lente no cotidiano suburbano, que construiu o alicerce de sua história junto à comunidade. Um estúdio na Praça São Braz, onde registrou diferentes gerações, serviu como elo.

A homenagem promovida pelo Acervo da Laje teve muitos elementos de afeto. A casa diante da Baía de Todos-os-Santos ficou lotada. Nos diferentes andares do imóvel, exposição fotográfica, acarajé, um pocket show único da banda Tallowah e muita afetividade preenchiam a programação que invadiu a noite.
Ao lado da esposa, Josefina Porciúncula, e dos filhos, Jorge acompanhava as manifestações, se emocionava e sorria a cada expressão de carinho. A todo instante alguém gritava: “salve Jorge!” e “porreta!” (expressão que virou seu bordão).

“Esse homem é demais. Como vocês disseram aqui, tudo dele era ‘porreta’. (Quando perguntava como estava) ele sempre dizia: ‘estou ótimo’. E isso dava aquele ânimo para quem estava triste. Você é uma pessoa, Jorge, que a gente guarda no coração. A gente te ama, Jorginho”, disse uma das convidadas ligada ao Centro Espírita Casa de Caridade Amigos do Bem.
Jorge de Jesus e a memória do Subúrbio
Por meio de uma placa que materializou a homenagem, o Acervo da Laje (saiba mais) destacou a contribuição de Jorge de Jesus para a preservação da “memória e história do Subúrbio Ferroviário de Salvador e em especial ao bairro de Plataforma”.

O texto do museu – fundado pelo casal Vilma Santos e José Eduardo – frisou ainda que o material fotografado pelo ilustre morador contribuiu para o acervo da casa: “Com a fotografia você nos ensinou a fazer memória através da sociabilidade”.
José Eduardo é responsável por um dos documentos mais relevantes da história de Jorge de Jesus, uma entrevista de pouco mais de uma hora.

Em conversa com o Correio Suburbano, George Porciúncula, filho do homenageado e baterista da Tallowah, descreveu com orgulho este 20 de novembro, já inesquecível, no Acervo da Laje.
“Foi um dos dias mais especiais da minha vida. Todo mundo chorando. A gente descobriu várias histórias incríveis de ‘painho’, a partir de pessoas que ele ajudou. Eu sabia que seu Jorge tinha uma história, mas ouvir os vizinhos retratando foi maravilhoso”, contou.
