
A comunidade quilombola do Alto do Tororó, localizada em São Tomé de Paripe, nas imediações da Base Naval, no Subúrbio de Salvador, promove neste sábado (28) a Festa das Marisqueiras e Pescadores. A iniciativa une celebração, memória e reivindicação territorial.
O evento marca os 15 anos de autodemarcação e certificação pela Fundação Gregório de Matos, além de reconhecer quatro décadas de resistência cultural frente à ausência de titulação definitiva.
O evento busca ser mais do que uma festividade. A ação denuncia as restrições de acesso ao mar e a permanência da comunidade sob ameaças externas, mesmo diante do reconhecimento legal como quilombo.
Samba, capoeira e bumba meu boi
A programação se estende ao longo de todo o dia e combina expressões culturais como samba de crioula, capoeira, corrida de canoas e bumba meu boi, com espaços de debate, feira de economia solidária e uma exposição fotográfica a céu aberto.
A mostra “Quando o Corpo vira Paisagem”, composta por registros feitos por jovens da própria comunidade, objetiva transformar as ruas do Alto do Tororó em suporte para narrativas visuais que reafirmam a presença e os sonhos quilombolas diante das tentativas de invisibilização.
Reconhecida como remanescente de quilombo desde 2010, a comunidade segue em luta pelo direito à terra, sendo pressionada pela Base Naval de Aratu e empreendimentos privados que limitam o acesso ao mar, fonte de sustento e pilar cultural da população local. A Festa se insere como espaço formativo intergeracional, em que saberes tradicionais são partilhados com crianças e jovens que crescem entre redes, conchas e batuques.
“A preservação da memória, a força da ancestralidade e o cultivo da cultura popular encontram expressão potente na Festa das Marisqueiras e dos Pescadores”, afirma João Paulo Diogo, do Coletivo Assessoria Cirandas.
A celebração, que desde 2018 já realizou três edições, volta ao calendário soteropolitano reafirmando o protagonismo das marisqueiras e pescadores na defesa do território.
A presença de entidades como a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPROMI), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), estão previstas na mesa de abertura.
Identidade coletiva
O samba, elemento central na programação, se coloca como ferramenta de fortalecimento da identidade coletiva.
“Eu acredito no samba como ferramenta de aquilombamento e de alto reconhecimento da população quilombola, pra mim é também um ato político. O samba nos movimenta e a nossa ancestralidade nos guia”, diz Bárbara Maré, liderança quilombola e integrante do grupo Matriarcas do Samba. Para ela, a música é uma forma de manter viva a memória dos que ergueram a comunidade com redes e tambores.
Ao ocupar as ruas e águas do Tororó com manifestações culturais e espaços de diálogo, a Festa das Marisqueiras e Pescadores denuncia a morosidade do Estado em assegurar o direito constitucional à terra para comunidades quilombolas.
A iniciativa é promovida pelo Tempero do Quilombo, em parceria com o Coletivo Assessoria Cirandas e produção da Cultura Tao, com apoio da Fundação Gregório de Mattos e do Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), e integra o edital Gregórios – Ano IV, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da Prefeitura de Salvador.
