Comunicadores populares do Projeto Rizoma – Conexões Comunitárias por Justiça Climática e Racial, do Instituto Commbne, lançaram a campanha “Bruno Reis é inimigo do Subúrbio?” para cobrar respostas da Prefeitura de Salvador sobre a crise socioambiental em São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário.
Segundo a organização, cinco meses após os primeiros registros da contaminação, centenas de famílias ainda sofrem com os impactos sobre o trabalho, a renda e a segurança alimentar. A praia permanece imprópria para banho, pesca e recreação.
O problema começou a ser denunciado em fevereiro, quando moradores identificaram um líquido azul-esverdeado saindo da areia, além da morte de animais marinhos. Investigações do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) apontaram concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, principalmente cobre, em áreas próximas ao foco da contaminação.
Em abril, a Prefeitura entregou cestas básicas a 626 famílias afetadas. Moradores e organizações sociais, no entanto, consideram a medida insuficiente diante dos prejuízos provocados pela interrupção das atividades pesqueiras e do uso da praia.
O caso também é investigado pelo Ministério Público Federal, que instaurou um inquérito civil para apurar as responsabilidades pela contaminação, os danos ambientais e os impactos sobre as comunidades locais.
Apesar de a Prefeitura ter reconhecido a situação como emergência ambiental por meio do Decreto Municipal nº 41.834, os recursos federais destinados à recuperação ainda não foram liberados, segundo o Instituto Commbne.
Para a entidade, a demora nas medidas de reparação evidencia uma situação de racismo ambiental, por atingir comunidades negras e periféricas.
“São Tomé de Paripe não enfrenta apenas um desastre ambiental. Estamos diante de uma violação de direitos que compromete o trabalho, a renda, a cultura e os modos de vida das comunidades tradicionais do Subúrbio Ferroviário”, afirmou Camila França, diretora do Instituto Commbne.
A situação foi apresentada no IV Encontro Internacional da Iniciativa Negra por Direitos – Justiça Reparatória e Democracia pelo Bem Viver, realizado entre 29 e 31 de julho, com o objetivo de ampliar a discussão sobre a crise e cobrar responsabilização e recursos para a recuperação da área.
O Projeto Rizoma é voltado à formação de comunicadores populares e ao fortalecimento da comunicação comunitária como ferramenta de promoção da justiça climática e racial.
Confira a nota na íntegra:
“Não são recentes os registros de vulnerabilidade ambiental no Subúrbio Ferroviário e nas Ilhas de Salvador, ligados a décadas de ocupação urbana, saneamento insuficiente e pressão industrial sobre a Baía de Todos-os-Santos.
Em fevereiro de 2026, moradores de São Tomé de Paripe começaram a relatar e registrar a presença de um líquido azul-esverdeado na praia, além da morte de siris, tartarugas e diferentes espécies da vida marinha. Os primeiros relatos apontavam que, ao escavar a faixa de areia da praia, um líquido aflora do solo e exala odor forte, característico de produto químico ainda não identificado naquele momento.
De imediato, a comunidade viu-se impossibilitada de realizar suas atividades econômicas como a pesca, a mariscagem e a prestação de serviços ligados diretamente ao funcionamento da praia, já que a Base Naval e São Tomé de Paripe são duas das principais áreas de lazer litorâneas da população suburbana. Desde então, são cinco meses de impacto direto e indireto na vida de mais de 800 famílias que seguem desassistidas pela Prefeitura Municipal de Salvador, mesmo após o decreto nº 41.834 de Emergência Ambiental publicado em 08 de junho de 2026, reconhecendo os danos ambientais, sociais e econômicos causados à população local.
Desde maio, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), já investigou e identificou a presença de concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, principalmente cobre, em áreas próximas ao foco da contaminação, oriunda das atividades das empresas Gerdau e Intermarítima. Segundo o órgão, a área do mar é considerada imprópria para pesca, banho e recreação, conforme a Resolução do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente – nº 274/2000 e segue interditada desde então.
Assim, perguntamos ao prefeito de Salvador: Qual é a demora para prestar assistência às famílias de São Tomé de Paripe? O decreto de Emergência Ambiental, prevê que os órgãos da administração municipal se mobilizem para a adoção de medidas reparatórias às famílias. A morosidade e invisibilidade do dano ambiental e econômico a esta região da cidade, configura a reprodução arbitrária de racismo ambiental, visto que a população impactada depende diretamente do acesso a um espaço ambientalmente seguro para a reprodução de suas existências.
O que acontece em São Tomé de Paripe, alarma denúncias realizadas incansavelmente pelas comunidades e organizações sociais de Ilha de Maré, que sofrem há décadas com os impactos de contaminação química associada às atividades do Pólo Naval de Aratu. Exigimos que a Prefeitura Municipal de Salvador assuma a responsabilidade de resposta humanitária a essas famílias, e que acione o Governo Federal para captação de recursos que sejam investidos na recuperação ambiental da área degradada. Que as empresas sejam responsabilizadas não apenas com o pagamento de multas, mas com fiscalização frequente para cumprimento das normas ambientais vigentes. O Subúrbio Ferroviário de Salvador exige respeito pleno a sua cidadania e (re)existência!”
